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AUTORRETRATO
 
Não sei como me veem as pessoas que me cercam, pois o seu olhar apresenta-se, sempre envolto em sete mil véus...
Suas paixões fazem com que me vejam, conforme sentimentos de momento, e tem vezes que os tais momentos não são tão promissores para mim...
Sei que aqui já tem embutido um juízo de valor, meu, sobre mim mesmo, transferido para o olhar de outros! Mas, tudo não passa de juízos de valor no final?
Mesmo assim, sempre á mercê de circunstâncias, muitas das quais nem posso tentar controlar, vou seguindo o meu caminho.
E vou pintando o meu autorretrato, por vezes com pinceladas mais suaves, outras vezes carregando nas tintas, imprimindo mais força nas mãos, que assim aglutinam mais tinta ao que já fora pintado.
Mas, assim é a vida!
Vamos caminhando, pois nossos pés tem necessidade de caminhos, e mesmo quando estamos descaminhados, perdidos, por escolha ou por sina, vamos caminhando...
Penso ser reto, e sinto-me probo!
Tenciono ser justo, mas erro, e tento ser justo, mas sou rude!
Quero sorrir, mas choro!
Devo ser circunspecto, mas gargalho!
Matizes mil em um autorretrato que se refaz a cada instante, mais longo e mais largo, do que o tapete de Penélope, enquanto Ulisses não vem!
E o tempo passa tão célere!
Ontem se iniciará o ano, ainda ontem era Páscoa, havia findado o carnaval... Agora? Agora é fim de ano, o Natal já se dispersa nas memórias, e o fim de ano bate desesperado na nossa porta, na nossa cara.
E o autorretrato se repara!
Cose em si as dobras, enche de tinta, onde lágrimas levaram e lavaram as tinturas de outrora!
Um brilho no olho, vai que alguém repare, se acentua...
Um sorriso, emoldurado pela nova dentadura, - nova e cara, dá as caras...
E a pele da face, sob mil cremes, e águas aromáticas, faz que se estica, e remoçará!
As mãos, o colo, o pescoço, ou escondem-se sob mil ardis, ou nós desmascara!
E vamos indo!
O coração escondido no peito, pulsa, pulsa, não para!
E de tão escondido não necessita usar máscaras para seguir em frente, posto que a caravana de gentes passa... Embora hoje, não são, só os cães que ladram... Abundam entre os que veem nosso passo, mil desvalidos, sem eiras e sem beiras, que lançam-nos as mãos descarnadas... – Pela fome, e pelas drogas...
A nossa plateia, dos jardins, dos pátios, dos lixões, de autômatos lançam-nos olhares perdidos, com um pouco de tudo, com muito de nada e de escarnio! Dentre eles, alguns ainda desejam roubar-nos o pouco que tragamos junto com o nosso passo...
Quanto ao nosso? Ao meu autorretrato, sempre um rascunho, sempre inacabado, talvez nunca chegue a um bom termo...
- Se em algum instante servir para o reflexo de algo, quem sabe não seja um refletir de Caravaggio!
Se por ventura vir a destilar os nossos, e meus sonhos e delírios diários, quem sabe não evoque um Salvador Dali?
 
Edvaldo Rosa
www.sacpaixao.net
26/12/2018
 
 
 
Edvaldo Rosa
Enviado por Edvaldo Rosa em 19/01/2019
Alterado em 29/01/2019
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