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UM HOMEM TÃO FALHO...
                                                     
Quando vi o pequeno menino, estendido na cama, balançando as perninhas ainda tão curtas, tão impregnadas de caminhos, ainda latentes, só soube me emocionar.
A memória foi lançada há uns trinta anos atrás, quando sozinho, em frente a um berçário, ante a iminência de conhecer o meu primeiro filho, sentia o coração a sair pela boca...
A atenção tanto no petiz de agora, quanto no de outrora, voltou-se para um traço em suas anatomias... Ambos, o meu primeiro filho, quanto o meu neto, pareceram-me tão iguais.
Num redemoinho de lembranças, as lutas, os acertos, os enganos pareceram-me tão ínfimos, embora tenham machucado, tanto quanto amainado dores... – As minhas, e de outros!
E por um instante pensei nas minhas escolhas como aquelas que ao cabo do tempo frutificaram...
Mas, quando vi o menino pequeno, percebi que não se tratava mais de mim, e de outros...
Uma nova história se iniciará!
Outros desafios virão...
 Outras decisões deverão ser tomadas, para o bem ou para o mal, pois o tempo não para.
No mais, quando o esforço de nossas vidas frutifica, não paramos para pesar os prós e os contras do caminho, só temos olhos para o fruto de nosso trabalho! Quando o nosso fruto, frutifica, faltam palavras, sobram lágrimas... – De alegria e gratidão!
E a paternidade é um oficio, é um sacerdócio, uma vocação abençoada, é um milagre!
Ser avô é coroar um viver e um amar sem tempo, e sem medidas!
E este novo exercício de amar fica tão mais urgente, tão mais sem tempo e sem medidas, que sufoca, quando parte de nosso peito, vindo de certo de algum recanto de nossas almas.
O que distingue a experiência da paternidade, da experiência de ser avô é a quase inexistência da necessidade, do ser pai, em formar um novo individuo melhor do que a si mesmo e ter que zelar por ele diuturnamente. Um avô faz tudo isso, mas de forma atenuada, disfarçada em um não fazer!
Com o nascimento do Juan, vou começar a reaprender, a reamar, a bem querer alguém, bem mais do que a mim mesmo!
Com a vinda deste petiz, irei me preparando para a vinda dos frutos de meu segundo filho, e certamente quando vierem, eu estarei mais bem preparado! – Se é que estamos preparados para amar!
Por fim, com os olhos querendo marejar, com o pensamento se transformando em sentimentos que tentam se sobrepor, fico espantado e maravilhado com a vida... - Este rio continuo que não reflui, que está sempre a procura do mar...
E quase em silêncio, um silêncio terno, balbucio: - Não é uma benção que um homem tão falho, possa mais uma vez, pela terceira vez, se eternizar?
 
Edvaldo Rosa
WWW.sacpaixao.net
21/08/2018
 
 
 
 
 
Edvaldo Rosa
Enviado por Edvaldo Rosa em 22/08/2018
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