Textos


O HOMEM E O CÃO.

Foto de Paulo Teixeira Monteiro

Finda as olimpíadas, onde nossos semideuses se confrontaram em lembrança aos Deuses,
um momento, capturado pelo olhar e imortalizado pela foto: Um homem e um cão...
Mas, na ausência reside o significado; o semblante do homem transmite paz, e o corpo do cão, envolto no pescoço do homem que dorme: aconchego!
Certamente não se trata aqui neste instantâneo de um comercial de margarina... Faltam apetrechos que dão forma a um status... Sobram cumplicidade e companheirismo, em nada artificiais!
Sobram carinho e respeito, erguidos sobre a base de um quase nada!
No entanto parece que nada lhes falta, pois eles têm um ao outro... - Companheirismo?
Este homem que dorme envolto pelo corpo do cão, que lhe serve de travesseiro, tem um semblante de contentamento, e o cão uma postura de quem serve e é servido pelo homem, numa simbiose completa...
Necessária?
Suficiente?
Com tantas pessoas neste vasto mundo, um se apoia ao outro, no outro, o homem se apoia no cão, o cão no homem...
Estão parados, num sono reconfortante, se não o fosse, não passariam a impressão de paz, de calma, onde suas almas não estariam assim tão em sintonia...
O encantamento da foto, e o espanto na cena, vêm de encontro e ao encontro do que se vive hoje em dia, em todas as cidades do mundo... Guerras urbanas, desrespeito, fome e miséria!
Parece que temos todos nós, de encontrar em nossas vidas apenas o necessário, o suficiente, que seja importante e indispensável...
O que nos sustente, e o que nos ampare, sem pompas e sem excessos!
A cumplicidade de quem nos ame, a quem amemos, e que possa dar-nos mais do que o necessário, mas sim o fundamental... –A si mesmos!
Precisamos entrar em comunhão!
E o que mais espanta na chapa, capturada num recanto da cidade, é que existe nela a ausência de confrontos... Aliada a falta de confortos... Por que nós não nos unimos mais? Não nos irmanamos mais? Não nos apoiamos mais?
O que encanta na foto tirada ao acaso, é a imanência do pensamento de que não ter é menos importante do que ser!
E que aceitar o que se é e o que se tem pode ser o caminho para se estar em paz!
Mas, se alguém questionar, se o fotografo da inesperada cena, inquiriu o homem da foto se ele estava feliz, e se aquela situação lhe bastava, levanto um pensamento:
Qual a importância que este questionamento poderia adquirir?
Não estaríamos colocando sobre o homem os nossos valores?
Não basta a sensação de impotência, de intolerância, de competitividade, de consumismo, de apego a coisas sem importância, que a cena despertou no fotografo? – E no escritor?
Não basta o sentimento de que estamos todos voltados para outro lado da vida... O de valorizar mais as coisas, o poder do ter, desdenhando o valor do ser, do estar vivo, do amar, do bem querer?
Mas o que mais espanta, é que nós homens estamos cada vez mais tentando sufocar a nossa humanidade... E a estamos sufocando a cada instante em que nos esquecemos de que somos também animais... – Pensantes, mas animais!
E que lamentavelmente, pensar já não basta!
E no confronto da foto com as nossas vidas, quem dentre nós, quantos de nós, afinal não seria o homem? Quem dentre nós, quantos de nós, não seria o cão?

Edvaldo Rosa
www.sacpaixao.net
29/08/2016


Esta crônica pode ser lida também em:http://revista.plenaidade.com/jogos-olimpicos-revista-plena-idade-setembro-2016/ páginas 42 e 43
 
Edvaldo Rosa
Enviado por Edvaldo Rosa em 12/09/2016
Alterado em 07/11/2016
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