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TEM RABANADAS?
TEM RABANADAS?

A noite de Natal me transporta para o passado...
Pois minha mãe preparava uma ceia que tinha um perfume e um sabor que me acompanham até hoje, vivos na memória...
De calças curtas, pé ante pé, achegava-me á cozinha em que, um tanto atrapalhada, minha mãe ia aos poucos cozendo a nossa ceia...
A família era grande, e muitas pessoas viriam ter conosco na comemoração do nascimento de Nosso Senhor.
Cansava-me e ia correndo para o quintal, cansava-me e voltava para a cozinha...
E lembro ainda da vez em que ela impaciente me perguntou:
- Que tonteira é essa, menino?
E eu sem pestanejar:
- Não vai ter rabanada? Eu adoro doce, adoro rabanadas... Sempre adorei!
-Sim vai ter rabanada! Não vê em cima da mesa os ingredientes esperando a vez de serem trabalhados?
E ai eu sai um pouco da cozinha, mas de vez em quando lançava olhares para as minhas futuras rabanadas... – Lambendo os beiços... E pensar que mamãe nem gostava tanto assim de rabanadas...
E assim, se ia esvaindo o dia, e eu ansioso pela noite, pela ceia á meia noite, pois se era fato que Papai Noel não faltaria, a ceia e as rabanadas também não!
E eu mal vendo as horas, á espera da chegada de meu pai... Ele era um buteiro, que devia estar aprontando algum traje para algum figurão lá na Garbo, ou na Ducal!
Mas a minha tortura não acabava fácil não... Mamãe cozinhava as carnes, assava, decorava, preparava a massa, e as verduras, quase sempre sozinha, depois que chegava do trabalho, e só bem no finalzinho é que preparava as sobremesas...
Era ponto pacifico os pudins de leite, o manjar branco com ameixas em calda, e as rabanadas...
Era comum e indispensável uma toalha rendada, branca, com detalhes dourados, na mesa, que seria simples e farta!
Era sempre servido aos convidados um vinho tinto, uma cidra, e muita Tubaína para a criançada!
Mas, tudo isso era para depois, para logo mais á noite!
De salgado, o que me traz uma lembrança danada de boa, era o frango assado com tiras de bacon... E uma macarronada! De molho vermelho, de carne moída, ás vezes feita como almôndegas... Às vezes não!
Bom mesmo foi o dia de natal em que mamãe me chamou junto a si, mandou-me lavar as mãos e colocou-me diante das futuras tão amadas rabanadas...
-Mas mãe, eu não sei...
-Quieto! Faz assim... Pois até o prazer dá trabalho!
Coloque as gemas dentro da tigela e ponha açúcar, vai batendo a gemada até que se transforme em um creme macio. Vai fazendo...
Eu vou colocando aos poucos o leite, e isso aqui que se chama nata, entendeu, nata!
O aroma vai ser desta baunilha em pó, - Na verdade sempre era!
Ai eu bati mais um pouco, e minha mãe mais outro tanto, molhamos as fatias de pão, e deixamos descansar... - As minhas rabanadas foram dormir...
E minha mãe só não deixou que eu fritasse as rabanadas, eram para depois...
- Para que eu não me queimasse e para que eu não as comesse antes da hora...
E assim, tive a minha aula de confeiteiro! Já era o craque da rabanada!
E um pouco depois, na verdade a espera me pareceu uma eternidade, foram chegando meu pai, meus avós, meus tios...
Amigos e amigas de meus pais... Neste recorte de lembranças ainda não tinha irmãos, ou eram pequenininhos!
E assim, as mulheres aprontavam a mesa em cujo centro sempre era colocado um vaso de flores, e a um lado uma jarra de plástico amarelo, com pontas em verde, na forma de abacaxi com suco de uva para as crianças... – Ou seja, para mim! Epa, não ia ter tubaína?
Estávamos chegando na hora do nascimento de Nosso Senhor!
Algumas pessoas falavam sem parar, outras estavam mais interessadas na comilança, minha avó rezava, e Papai Noel dava o ar da sua graça...
Abraços, congratulações, desejos lançados ao ar...
Lembro-me que pouco comia, pouco bebia, que corria atrás das crianças, puxava os cabelos das meninas, provocava os meninos...
Os homens bebiam e fumavam... Meu pai também, após um dia de trabalho, ônibus cheio, vindo lá da Rua Direita...
Aos poucos a casa ia esvaziando, esvaziando, esvaziando...
Meus avôs, que também eram os meus padrinhos, tios e tias, amigos e amigas, iam embora, outras casas ou suas camas estavam lhes chamando...
E finalmente, vencendo o sono, ia chegando a hora das rabanadas...
A casa meio vazia, todas as gentes se escoaram porta a fora, retinha dentro de si, um tanto despertos, outro tanto sonolentos, eu e minha mãe, sempre ao final do Natal, sozinhos, um com o outro, diante da televisão que naquele tempo era em preto e branco, e assistíamos a aqueles filmes bíblicos; a vida de Cristo, da manjedoura á crucificação...
Eu e mamãe assim vencíamos as horas frias da madrugada, eu colado nela, e nas rabanadas!
Eu não disse aqui ainda, mas naquele tempo as rabanadas eram somente minhas, fritadas na hora, com canela e açúcar, pela minha mãe, que também era só minha!
Hoje, a divido com muita gente, mas o gosto daqueles Natais, e daquelas rabanadas, só divido com minhas memórias!

Edvaldo Rosa
www.sacpaixao.net
25/11/2015


Edvaldo Rosa
Enviado por Edvaldo Rosa em 23/03/2016
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