Textos


PARALELOS...


Noite quente de março. Estou no coletivo rumando para o trabalho, ritual já bem antigo, há muito oficializado. Tenho Lygia comigo, que segue em uma barca, numa noite de natal.
Diferente dela, estou só, sem um interlocutor provável.
Deixei ainda a pouco a amada no leito, frente a frente com uma TV ligada...
O filho mais velho, indo de um lugar ao outro... Poucas palavras!
Lygia inquieta, segue os caminhos das águas, seguida por nuvens suspensas sobre sua cabeça preocupada.
Eu?
Sigo pensando em tudo, pensando em nada!
Do que me adiantam as lamurias? Certos resultados de certos eventos, não estão em minhas mãos condicionados.
Mas, houveram perdas, que ocasionando desgastes, faz com que eu siga imerso em mim mesmo!
-Ainda bem que tudo muda! Existe o inesperado!
Ontem, por exemplo, como que do nada, de minhas coisas saltou uma lagartixa sobre o cobrador, meio amarronzada; hoje ao menos estou limpo...
Mas, sigo, com um olho no peixe e outro no gato... Olho Lygia à minha frente, e os passageiros ao meu lado... Imobilidade e movimento num mesmo espaço! De olho no acaso...
A língua de Lygia rompe o silêncio e chama para si uma mulher presente na barca, que traz um menino doente nos braços...
Eu, quando muito, só consigo ter meus próprios pensamentos avivados, qual a chama, na vela, pálida, sobre o tampo branco do armário, que acendi antes desta peregrinação rotineira.
A mulher na barca, traz seu único rebento nos braços, eu trago somente a mim mesmo, e em mim naufrago roto e acanhado!
Lygia pensa que o rebento é morto! Eu, um vivo dissimulado!
Enquanto segue a barca nas águas, lenta, e eu no coletivo que serpenteia e faz zigue zague em ruas estreitas a noite adensa... Lá e cá!
Para Lygia só resta o cigarro que traga, que de nicotina a alimenta, para mim as pessoas que do ônibus saem, mais do que aqueles que nele adentram...
Súbito, a visão de uma mulher que se aboleta numa cadeira a minha frente, a minha direita, antes, apenas a forma de uma mulher, visto que nada para mim representa... É sem duvida uma flor, mas sem o olor de algum encantamento maior.
Recolhido em meus pensamentos, continuo só!
De que me adiantam tantos sonhos?
Toda a luta?
Tanto empenho?
Se tudo e tanto é um individual empreendimento que a despeito de alguma crença alheia, tem que encontrar em si mesmo alento e forças.
A fala da mulher na barca, causa em Lygia estranhamento e medo, a mim, aqui no coletivo, é o silêncio!
A mulher tem nos braços o seu rebento, que Lygia teme que esteja morta, só que estava insone e logo desperta, abre os olhos, abre a boca, mexe os dedos, se movimenta, igual a chama que consome a vela pálida, sobre o tampo branco do meu armário em minha sala.
A cria daquela mulher é o seu milagre, a sua esperança o seu alento, enquanto a chama que se propaga consumindo a vela é a minha esperança lutando contra os meus medos, ao mesmo tempo em que aqui sentado, vou seguindo, fazendo o que há muito tempo tenho feito, peregrinado; um prisioneiro de meus sentimentos, livre, leve e solto apenas em pensamentos mal revelados...
Finda-se em fim a viagem de Lygia sobre os caminhos das águas, sob o firmamento, é vivo o rebento, outrora, ainda a pouco tido como morto, agora ainda mais entre braços aconchegado!
Para mim, uma última curva, um último farol, entrando no terminal urbano...
Desço apressado... Estou sempre atrasado em meu ritual cotidiano...
Um pensamento no entanto sobressai dentre tantos: Como Thomé preciso ver meu milagre realizado!
-Que ninguém me ouça: Ter alguém vivo ao meu lado!
Finde-se esta noite, que amanhã seja um outro dia,- Talvez, do dia do meu milagre, o começo!
Lygia estará em outras plagas, e eu espero estar com o Roberto...
Mas isso já será um capitulo, como já o fora antes, da história da minha história!


Edvaldo Rosa
www.sacpaixao.net
06/03/2013


 
Edvaldo Rosa
Enviado por Edvaldo Rosa em 23/04/2014
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