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FOLHAS SECAS NO OUTONO...
Folhas secas no outono...



Foi num dia bem guardado em minha memória, que vi um menino novo, jogando bola na pracinha.
Era bem mais jovem do eu, e mudara à pouco para a minha rua.
Em pouco tempo foi se achegando, foi se destacando em nossas peladas quase diárias, - Artilheiro, tinha uma ótima pontaria, que o diga as janelas de dona Aurora!
Éramos praticamente vizinhos, e em pouco tempo estávamos conversando, e numa tarde clara, de tão ensolarada, chamou-me para jogar ao seu lado. Foi engraçado... Num mesmo time, o perna de pau e o artilheiro, atuando juntos, fazendo tabelinhas, numa cumplicidade algo fraterna.
Com o tempo, fomos também soltando o verbo... - Deitando língua sobre assuntos dos mais variados!
Havia as peladas, os treinos, quase sempre improvisados, e momentos de silêncio e os das palavras, quando éramos pegos ao pé da conversa.
Confidenciei um dia, que futebol não era bem a minha praia, jogava, mas do que eu gostava mesmo era de livros...
Mostrei-lhe as minhas letras, - crônicas e poemas que batiam ás portas de minha consciências em horas incertas...
Um dia vi meu amigo escrevendo na terra, do chão batido, um misto de números e letras... Intrigado perguntei-lhe o que era aquilo... É uma fórmula química. -  Respondeu-me seco.
Você não viu o Zé da dita saindo bêbado do via láctea, perguntou-me rápido...
Isto que eu escrevi é a fórmula do álcool que tem na pinga! Mano, Gê, você é louco?  Posso pensar na Benedita, levando uns sopapos, no berreiro no barraco de folhas de zinco, um pito no Pedro, uns chutes no gato malhado, mas nunca na  fórmula química do álcool da pinga, que bebe o Zé da Dita!
E boquiaberto, ri de dar gosto, espantado!
E assim, passamos dias e mais dias, vivendo a vida, falando das mulheres e jogando bola!
Foi numa tarde bem demarcada em minha memória, em que o céu rubro, feito sangue, dava vez ás primeiras estrelas, que notei os olhos de Gê no horizonte, pregados, fixos com cola...
Sua voz, num quase murmurio, rompendo o silêncio da tarde que morria, surpreendeu os meus ouvidos: Eu gosto é de estrelas!
Aquelas – apontando com o dedo, são do cruzeiro do sul, aquela é da ursa maior, aquela é a luz da estrela Dalva, aquela é Vênus...
- Mas Vênus não é um planeta!
Sob os galhos da figueira, sobre a grama da praça – Aurora Boreal, esparramados quase a noite inteira, ficamos contando estrelas que pareciam vir ás mãos de meu amigo, quase um irmão, tremulas de emoção...
Mas, isso tudo foi a algum tempo!
Hoje, aqui, debaixo da velha figueira, na noite fria sem estrelas, tudo isso é apenas lembranças que tocam fundo o meu coração.
Meu amigo foi para outra direção!
Nossos passos se separaram, não há mais jogos, nem crônicas, nem ´poemas, nem confidências sobre o segredo das estrelas...
E nem sei a tal da fórmula do álcool da pinga que matou no ano passado o Zé da dita!
Estou só, só com estas letras, que se refletem em minhas retinas muito embaçadas de tão liquidas...
Meu Deus, tudo muda!
As pessoas, as nossas vidas!
Tudo se transforma...
Tudo serão folhas secas no outono, que um vento mais forte levará rodopiando embora!
Só ficarão mesmo as estrelas...
Será que alguém saberá os nomes delas de memória?


Edvaldo Rosa
12/04/2012
www.sacpaixao.net
Edvaldo Rosa
Enviado por Edvaldo Rosa em 12/04/2012
Alterado em 13/04/2012
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