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Reflexo no espelho...
 
Acordei melancólica hoje, triste mesmo... Com uma melancolia que tomou conta de mim logo após a saída de meu esposo, de meu lado... Ele precisava ir!
Talvez a música no rádio estivesse libertando esta melancolia e esta tristeza de dentro de mim.
Só que ambas vieram estraçalhar-me com garras afiadíssimas... Não tinha consciência de que me sentia assim... Tanto assim!
Sentada na beirada da cama, olhei demoradamente para o espelho do tocador, fixando o olhar em meu rosto, e nas marcas nele, deixadas pelo tempo...
Passei as mãos pelo pescoço, no meu dorso demorei ainda mais o toque das mãos...
Vasculhei os contornos de meu corpo, um corpo ainda, em nada desprezível...
Fechando os olhos, pensei em quem sou eu... Como penso e como sinto... Meu Deus, no que eu errei?
Hoje, a melancolia e a tristeza, são frutos da mágoa, que corroe o meu ser...
A quebra de confiança nas pessoas, na mais intima principalmente, dói demais e deixa marcas... Meu esposo teve outra! Outra...
Pior foi o motivo da traição: “Orgulho ferido.”
E o que mais me estranhou, e que me espanta até agora, foi ter sido trocada por uma mulher que em nada é mais bonita, charmosa ou atraente do que eu...
“Orgulho ferido!”... Meu Deus o que será isso?
Parece que nunca entendi bem os homens, será falta de conversa?
Desde o tempo em que vivia na casa de minha avó, achava estranho o comportamento dos homens...
Um dia minha avó disse-me sorrindo: - Os homens são todos crianças... Pensam que detém o poder de comandar as nossas vidas, pior, que detém o direito, e se ressentem quando as coisas não saem como planejavam... Seu avô, por exemplo, quando perdeu o emprego e as condições de manter a nossa casa, adoeceu e quase morreu de desespero, quando eu fui lavar roupa para fora, para ajudar nas despesas da casa...
Orgulho ferido seria isso?
E pensar que passamos por momentos assim, onde eu tive que tomar as rédeas de nossas vidas, para o barco não afundar... Mas hoje os tempos não são outros? Será que os homens são todos iguais, em todos os tempos?
Hoje me deito com o homem que amo... Mas que sinto que não conheço!
Minha avó sempre me dizia; - As pessoas são o que são... E dá ás outras pessoas apenas o que tem, e nem sempre o que as pessoas esperam delas...
Tenho medo de tocar neste assunto com ele, não quero piorar ainda mais a nossa situação, mas vez e outra queria tanto uma prova de amor dele... Algo que me tranqüilizasse o coração...
Esta chovendo lá fora, olhando pela janela procuro na rua as marcas dos pneus do carro dele...
A chuva já lavou estas marcas...
E minha face se banha em lágrimas...
Uma prova de amor!
- Prova de amor, minha filha... Coisa mais antiga! Isso é coisa de meu tempo de juventude... E de certa forma uma prática em muito masculina... Em que movidos por desejos íntimos e inconfessados, os homens nos colocavam contra a parede, com esta história de prova de amor... Disse-me minha avó, quase sorrindo...
No meu tempo sim, disse-me ainda, é que os homens vinham com atestados de antecedentes, com títulos de doutor, com certificados... Hoje vocês jovens se apegam mais em sensações, olho no olho, no toque da pele, no contato apressado dos corpos... E você me vem com esta história de prova de amor?
O que você sente minha filha, quando olha nos olhos dele? Quanto toca apele dele? Quando se deita para ele? Com ele?
Lembro-me que a minha resposta foi um grande silêncio...
Cansada de olhar a chuva, com a mão fria, e com o coração doendo, encaminho-me para o espelho da porta do guarda-roupa... Enxerguei-me inteira... Pelo menos do lado de fora! Mas estava do avesso...
A mão fria deixou a marca de seu contorno no espelho, a qual avivou algumas lembranças...
Passeávamos pelo Parque do Ibirapuera, e em uma árvore esculpimos nossos nomes em dois corações... O meu estava escrito dentro do dele, não estava lado a lado, nem em pontos opostos, o meu coração estava escrito dentro do dele... E agora?
E o dele ainda esta no meu?
A marca de minha mão fria no espelho do quarda-roupa, tão pequena, levou-me a olhar minhas mãos com estranheza... Elas de tão pequenas cabiam inteiras dentro das mãos dele...
E eu costumava sentir-me tão segura... E agora?
Num último olhar para o espelho, nasceu  em mim um arrepio... O reflexo era o da solidão e do desespero! De uma pessoa só com suas dúvidas, com seus medos...
Cheia de desejos e necessidades...
Estranhamente triste e melancólica!
Com um enorme medo de encarar o amor...
Ele pediu perdão... Ele pediu uma volta...
Não seria isso uma prova de amor?
Meu Deus o que eu faço agora?
Minha avó esta tão longe, e falar-lhe pelo telefone não me tranqüilizaria, necessito do olho no olho, do som de sua voz, do tom em sua voz... Como preciso do olho dele, do som da voz dele, do tom amável, quente na voz dele... Um carinho em murmúrios que recebo enquanto estamos a sós...
Esta chovendo ainda lá fora...
Esta, tanto frio agora...
Súbito, a porta do quarto se abre... Ele retornou e eu tão absorvida em meus pensamentos nem vi...
-Esqueci a pasta de documentos... Ainda bem que notei ainda agora, virando a esquina... Disse-me entre dentes...
Aproximou-se de mim para um beijo... Em meio a pressa quase desequilibrou-se, apoiando-se com a mão aberta no espelho do quarda-roupa, endireitou-se, colocou-se a minha frente, abraçou-me, beijou-me e foi de novo embora...
Em minha face senti nascer um sorriso... O seu beijo ainda é bom e gostoso!
O olhar aguçou-se... Fixando-se no espelho... A marca de sua mão sobrepôs-se á minha... Como o desenho de nossos corações na árvore do Ibirapuera...
Assustada, espantada, senti o meu coração se tranqüilizar...
O beijo, o seu gosto, o toque dos corpos, as marcas das mãos no espelho querendo desvanecer, nós estamos ainda um dentro do outro... Ele guarda-me em si, eu ainda sinto que sinto-me completamente nele...
Os tempos são outros... Mas nós somos os mesmos...
Palavras doces, de minha avó, voltam á minha mente: ”- Todos são o que são...” Só se pode dar o que se tem... “
Estranhamente, o meu reflexo no espelho, já não me parece tão só!
Carece de um retoque aqui e outro acolá...
Mas, certamente, não é o avesso de mim mesma... Vou penteando os cabelos, pensando nos dedos dele entre as mechas...
E sentido os olhos dele, fixos, em meus olhos verdes, novamente...
Acesos por amor... E pela esperança!
 
Edvaldo Rosa
www.sacpaixao.net
07/12/2010
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Edvaldo Rosa
Enviado por Edvaldo Rosa em 07/12/2010
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